AVISO • Pedimos à todos que não repostem a história em outros lugares, tanto em blogs, quanto em páginas no facebook. A fanfic é publicada em um lugar acessível à qualquer leitor. Esperamos que entendam e evitem problemas.


Seleção de Capítulos.
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Before you leave me.
“Por mais que você seja destruído mil vezes, de milhares de formas diferentes, você pode encontrar o seu refúgio. Um lugar ou alguém que te faça sentir como nas manhãs de natal."




I – Another life.


“Eu escolhi você, então não me abandone. Por favor, fique comigo.”
Ela chorava, eu conseguia vê-la ali, eu queria abraçá-la, segurar suas mãos e dizer que vai ficar tudo bem, eu tentei, tentei ao máximo, mas ela parecia não me ouvir.
- Eu não vou te abandonar minha menina, eu vou ficar aqui com você, foi o que prometi lembra? – Era como se estivesse em algum tipo de filme, eu era o protagonista de uma história triste, podia nos enxergar de longe, eu estava deitado em uma maca, e ela ainda segurava minha mão quando o doutor disse que ela precisava me deixar ir. Me deixa ir? Como assim? Eu quero ficar, quero ficar com ela. – Não desista de mim, não desista, princesa! – Gritei o mais alto que pude. Ela não me ouvia, mas como não? Eu estava ali, ao lado dela, podia senti-la segurar minha mão. Fechei meus olhos por alguns segundos, quando voltei a abrí-los ela já não estava mais ali. – Por quê? – Questionei a mim mesmo. Eu queria estar com ela, eu queria mais do que nunca, eu sentia que ela precisava de mim, precisava do meu abraço, do meu beijo, do meu cheiro, do meu corpo, assim como eu necessitava dela, mas onde ela estava agora? E o que estava acontecendo comigo? Pisquei os olhos, agora eu me encontrava em um lugar que conhecia muito bem, o banheiro de ‘nosso quarto’, ela se encarava no espelho e chorava, muito. – Não chora, estou aqui, estou a salvo, você me vê? Consegue me ouvir? – Tentava acalma-la, mas ela não respondeu. – Princesa? Você não me ouve? – Eu estava ali ao lado dela, eu tinha certeza, mas ela não me enxergava, não me ouvia, eu não podia ajuda-la, não podia cuidar da minha menina. Despiu-se e caminhou até a banheira. – Você precisa me ouvir, precisa sentir que eu estou aqui, de alguma forma. – Sussurrei. Ela não reagiu. – Eu te amo. Eu te amo. – Gritei. Era assustador vê-la sofrer, vê-la chorar por mim e não poder ajudá-la. – Por favor, não chora... – Disse mais uma vez. – Não chora, eu canto para você. – Sussurrei. Então cantarolei. – “I wanna be with you, I wanna feel your love, I wanna lay beside you, I cannot hide this even though I try…” ( Quero estar com você, quero sentir seu amor, eu quero deitar ao seu lado, não posso esconder isso, mesmo que eu tente.) – Ela abriu os olhos, ela me ouviu? Acho que ela pode me ouvir. Forçou-se a fechar os olhos novamente e cantarolou, então eu a acompanhei. Até que seus lábios fossem silenciados, e sua expressão voltasse a aquela dor de antes. Em seguida se enxugou, eu desejei abraçá-la, eu precisava disso, ela também. Mas porque ela não podia me ver? Voltou a encarar-se no espelho, e fez sua higiene matinal. Fechei meus olhos tentando encontrar uma razão para tudo isso, tentando achar uma solução para por um fim nesta dor. – Vai ficar tudo bem. – Comecei. – Você sabe, não sabe? – Questionei. Sem resposta. – Isso é estranho, o que sinto, o que vejo... Parece que estamos brigados... – Sorri fraco. Era como se eu estivesse falando sozinho. Ela não me ouve e também não me vê. – Odeio isso. – Encarava seus olhos através do reflexo. Então ela atirou um frasco de perfume sobre o espelho, o meu, enquanto dizia que iria me tirar dali. Ela conseguia me ver? Eu precisava de respostas, mas nada do que eu dissesse ela poderia ouvir. Porque isso estava acontecendo com a gente? Era para provar algo? Mas o que? Eu já sabia que não podia viver sem ela. – Eu te amo... – Sussurrei. – A única coisa que eu desejo agora, é poder te tocar. – Me aproximei e tentei tocar sua mão, ela me olhou pelo reflexo, não pude decifrar sua expressão. Alguém abriu a porta.


Pretend It’s Ok – Little Mix

Pisquei um segundo para assimilar tudo aquilo, mas quando abri meus olhos eu já não estava no mesmo lugar. Que tipo de provação é essa? Eu tenho que assistir a flashes do amor da minha vida sofrendo? Mas porque eu preciso ver isso? Porque nenhuma de minhas perguntas tem resposta? Porque não há ninguém por mim? Para responder minhas questões?
Era uma grande sala, branca, com enormes janelas, e algumas velas postas em candelabros, rosas vermelhas e um caixão preto no centro da sala, envernizado, forrado em veludo vermelho. Lindo, porém mórbido. Havia alguém ao lado e chorava, eu estava próximo à porta, distante o bastante para não reconhecê-los, nem a garota, nem o corpo. Consegui enxergar dentro daquela grande caixa alguém com vestes escuras, a garota o beijou, ela parecia amá-lo, um amor tão forte quanto o meu por . Ela se virou em minha direção e caminhou até a porta. – ? – A porta foi aberta, então houve silêncio por alguns segundos, não me virei para vê-la partir.
- Isso é seu. – dizia. – Ele estava me mostrando como te pediu em casamento. Ele te amou como nunca amou ninguém, você foi uma garota de sorte por tê-lo ao seu lado, ele nunca me amou... A culpa é toda sua. Ele te amou como nunca antes, sei disso, porque ele deu a vida por você. – A garota parecia enfurecida. Então pude ouvir passos caminhando para fora, cada vez mais distantes. Novamente o silêncio se fez presente, a não ser pelos soluços de alguém que chorava, alguém se aproximou. Era ‘ela’. Caminhou até a beira daquela grande caixa preta no centro da sala, passando ao meu lado sem sentir a minha presença.
- Eu preciso que você olhe para mim. Preciso que me sinta aqui. – Implorei, caminhando até minha menina. E parei, quando vi quem seus olhos admiravam. Era... EU!
Paralisei quando vi minha imagem deitado naquele lugar. Agora tudo começava a fazer sentido, ela não podia me ver, sentir, ouvir, porque eu estava morto... MORTO. Suspirei, de certo modo aliviado, por não ser ela em meu lugar, suas lágrimas lavavam seu rosto de anjo, enquanto eu continuava lá, imóvel. Assisti aos meninos se despedirem de mim, eles choravam. Eu não estava muito diferente, não em alma, eu estava destruído, não aguentava mais aquilo, estava esperando a tal da luz branca que aparece e te leva para o paraíso. Queria que ela aparecesse, o mais rápido possível, eu não poderia assistir ao adeus de , eu não queria ir embora, não quando fui mandado, eu deveria estar com ela, ao seu lado... Ela precisa de mim. Lá estávamos nós, de novo, sozinhos naquela sala.
- ... – Sussurrou. – Meu . – Tocou minha face e eu não pude sentir. – Eu queria estar no seu lugar. Eu deveria, você é minha vida e agora eu não sou nada, pois você não está aqui, meu menino. É pedir de mais? Implorar que você fique comigo? Não quero dar adeus, eu não posso. Prometa ser o meu anjo, prometa aparecer para mim, segurar minhas mãos todas as noites, continue comigo... – Lamentou. – Meu amor, meu único amor, não quero te deixar ir. Preciso do seu sorriso, do som da sua voz, preciso de você. Não me deixe. Não vou te dar adeus, talvez um último primeiro beijo. – Selou nossos lábios demoradamente. – Por favor, acorda... Olhe nos meus olhos, sorria, diga que me ama. – Sussurrou. Ela esperava uma reação, mas eu não fiz nada. Porquê não fiz nada? – Fique bem... Até amanhã. – Colocou algumas rosas sobre minhas mãos, em seguida pegou alguns bilhetes e os leu.
“Eu te amo, nunca deixei de amar.”
“Eu te escolho, sou sua, eu te amo, preciso de você hoje, amanhã e sempre, porque amor não é só uma palavra, é entregar-se de corpo, alma e coração. Eu te amo príncipe, eu te amo, anjo...”.
“Sempre tive medo de te perder, eu não estou preparada para te deixar ir, eu aceito, eu escolhi você!”

Ela acabara de aceitar o meu pedido de casamento, iríamos nos casar... Se eu estivesse ali... Com ela... Vivo!
Pisquei meus olhos, queria sair dali, pular aquela cena. Foi a primeira vez que desejei não ouvir a sua doce voz. Pisquei de novo, de novo e mais uma vez, nada aconteceu. Porque eu não conseguia sair daquele lugar? Agora aquela tal ‘provação’ parecia uma sessão de tortura.
- Eu te amo... Durma bem. – Sussurrou por fim. E mais uma vez seus lábios tocaram os meus. Quis por uma vida toda estar em meu corpo para que pudesse sentir seus lábios por uma vez mais, mesmo que fosse a última. Uma de suas lágrimas caiu sobre o rosto do corpo que repousava ali, ela não a secou. Talvez por me fazer parecer real novamente, a gota caiu abaixo de um dos meus olhos, assim fazendo parecer minha. Pouco tempo depois meus pais entraram na sala, se despediram mais uma vez, enquanto todos os familiares e amigos entravam na mesma. Alguém fechou o caixão... Era realmente o fim. Uma vez deitado naquela mórbida cama, nunca mais acordarás. A princesa chorava ainda mais, pois sabia que mesmo se beijasse seu príncipe ele jamais acordaria, não daquele ‘feitiço’ ao qual foi submetido. a segurava pelos braços, para não deixa-la desabar, segurava a mão de minha mãe, abraçada ao meu pai. e se encontravam ao lado de , e choravam também, alguns amigos da família e parentes próximos continuavam incrédulos. Era realmente hora de partir, o caixão foi levado até o local do túmulo, tudo escureceu e eu já não sabia onde estava. Me senti sufocado, talvez não fosse uma luz branca, você simplesmente é privado de oxigênio e então acaba. Talvez a luz branca seja apenas uma lenda, eu não queria ficar no escuro, meus pulmões imploravam por ar, mas não havia ninguém para me puxar de volta, rezei para acordar de um pesadelo, mas não aconteceu. Fechei meus olhos fortemente, e me concentrei em sair dali. Minha respiração voltou acelerada e eu a controlei. Abri os olhos e percebi que estava de volta à ‘nossa casa’, no quarto dela, ‘nosso quarto’, mais precisamente no banheiro, onde o espelho se encontrava rachado e os cacos de vidro do perfume ainda espalhados ao chão. Porque eu estava naquele lugar sozinho? Nem ela estava ali. Me aproximei do espelho e a porta se abriu. Ela entrou chorando, agora mais do que antes, aproximou-se pegando um dos cacos de vidro e o encarou.
- ... ... Fale comigo. Sei que você está aqui. – Disse baixo.
- Estou, sempre vou estar ao seu lado minha pequena. – Aproximei-me esperando que ela pudesse me ver, me ouvir.
- ? Por favor, não me abandone, preciso de você. – Disse em meio aos soluços. – Eu não vou ficar sem você, não vou ficar aqui sozinha. – Deixou que seu corpo caísse sobre os joelhos, passou as mãos pelo rosto e cabelos. Ela encarou mais uma vez o pedaço de vidro em sua mão, e num ato desesperado, o passou em sua lisa pele, no pulso esquerdo. – Eu não vou continuar aqui se você não estiver comigo, eu quero ir para onde você está agora. – A princesa chorava, e passava aquela lâmina de vidro por seu pequeno pulso. Eu não podia acreditar que ela estava fazendo aquilo, eu não podia deixá-la se machucar assim. Eu a assistia se auto-mutilando por inúmeras vezes, sem se importar com a dor que lhe causava... Que me causava. Tentei falar com ela, mas talvez minha voz fosse inaudível. Segurei seu pulso tentando impedi-la de se machucar, mas seu braço escorregava por entre minhas mãos, eu não podia segurá-la, mas eu precisava tentar. Hesitou e jogou o pedaço de vidro contra a parede. Parecia procurar por meus olhos, como sempre fazia, mas eu estava translúcido. – Me desculpe... Sei que você está aqui, posso te sentir agora. – Ela fechou os olhos, deixando que suas lágrimas caíssem e escorregassem pelos seus cortes, pois suas mãos repousavam sobre suas pernas.
- Eu não sei por que essa maldita luz branca não aparece para mim. – Achei que fosse uma lenda, mas eu ainda estou aqui. – Eu tenho que ficar te vendo sofrer, se machucar e não posso fazer nada. Me sinto incapaz. Se você chorar, não consigo secar suas lágrimas, se sentir medo, eu não consigo te abraçar. – Hesitei. Eu precisava de fôlego. Era como se meu coração fosse explodir em segundos, era uma dor pior do que qualquer outra que eu havia sentido antes. As lágrimas escorriam desesperadas pelo meu rosto, e não caiam em lugar algum. Minha voz agora estava trêmula, não era a mesma de minutos atrás, ela estava com os olhos fixos em minha direção, mas eu sei, ela não podia me ver. Pois seus olhos pareciam procurar algo, talvez os meus. – Eu sempre estarei com você, mesmo que possa não mais sentir. – Continuei, e seus olhos se tornaram atentos e brilhantes, um tanto esperançosos. Ela pode me ouvir.
- Eu sei, príncipe... Eu sei... Não posso ouvi-lo a todo momento, mas sei que você consegue me ouvir. Quando eu precisar conversar você estará aqui... – Sussurrou. Me senti útil por um momento, por ela saber que podia recorrer a mim quando achasse necessário. Levantou-se e direcionou-se até o lavabo, ligou o registro e deixou que a água lavasse seus cortes. – Ouvi sua voz trêmula... Não chore, príncipe. Vai ficar tudo bem, lembra? – Suspirou.
- Eu sei... Tudo vai ficar bem. – Sussurrei. Em seguida ela tomou um rápido banho, ficou o tempo todo em silêncio, talvez a ideia de falar com alguém ‘invisível’ ainda não fizesse tanto sentido para ela. Caminhou até o quarto, enrolou em seu pulso um lenço, acho que uma tentativa de curativo, colocou um de meus moletons e seguiu em direção à sala. Não havia ninguém. Então se sentou no sofá e esperou até que alguém aparecesse... Quem dera fosse eu. entrou na casa com uma pequena caixa e alguns CD’s.
- Eu trouxe para você. – Entregou a ela.
- O que é? – Perguntou. Ele indicou que ela abrisse, e assim o fez, eram os bilhetes... Os bilhetes daquela noite, naquele antigo prédio no centro da cidade. Ela deu um meio sorriso, então fechou a pequena caixa e a colocou na mesinha.
- Talvez você queira assistir sozinha. – a entregou os CD’s que segurava.
- Não! – Hesitou. – Você pode ficar? – Pediu, segurando-o pelo braço. caminhou até o aparelho de DVD e colocou um dos CD’s, logo voltou para o sofá, sentando-se ao lado da pequena, que o abraçou, como se sentisse medo. Eram os vídeos que havíamos gravado juntos, alguns só de nós dois, outros de todos. Ela chorava como nunca antes, enquanto se manteve intacto, sem demonstrar reação alguma. Ele era forte, eu sabia que ele não estava bem, mas estava dando o seu máximo para que ela não desabasse ainda mais. A pequena chorou até adormecer. Talvez soubesse que por ela não ter dormido bem esses últimos dias, estaria em sono profundo, agora que adormeceu sobre seu peito. Na TV ainda mostrava um dos vídeos, onde nós dois riamos de uma piada de , ele resistiu a encarar as imagens, mas quando o fez, se manteve atento a cada detalhe, pela segunda vez pude vê-lo chorar, chorar como se tivesse perdido um irmão... Mas o que ele não sabia, era que eu estava ali... Assisti aquela cena, até que me permitisse piscar os olhos, então me encontrava na cozinha. Enquanto ela preparava o café da manhã, ele dormia no sofá. usava o avental “Mrs. ” que tanto achava ridículo. Fez panquecas, sentou-se à mesa e serviu dois pratos.
- Bom dia! – adentrou a cozinha e beijou o topo de sua cabeça. Em seguida, sentou-se ao seu lado e deu uma garfada na panqueca.
- Bom dia pra você também. – Ela sorriu e balançou a cabeça negativamente. Ele a olhou espantado.
- Eu sentei em cima do , e estou comendo a panqueca dele, não é? – Sorriu.
- Toma, essa é para você. – Entregou-lhe um prato com panquecas e mel.
- Obrigado... Desculpe . – Disse sentando-se em outra cadeira. Era estranho vê-los falando de mim, como se eu estivesse lá... Como se eu não estivesse.
- E como vai ser a banda agora? – Questionou.
- Não existe... Não sem ele. – respondeu seguro e não a encarou.
- Não! Você não pode fazer isso, é o seu sonho, é o sonho deles também... – Eu disse. Mas que droga, eles não podem me ouvir. Virei-me, e pude ouvir um barulho.
- ? – Ela sussurrou, enquanto a olhava, incrédulo.

II – Find me.


Analisei o ambiente, esperando encontrar algo que pudesse ter derrubado, mas era impossível, eu não estava lá... Eu estava, mas não em corpo. Apenas percebi que os meninos adentravam a cozinha.
- Não é o , mas... – Hesitou .
- Oi! – Ela disse forçando um sorriso.
- Como você está? – Questionou e ela apenas deu um meio sorriso.
- E você, como está? – sussurrou para , que apenas assentiu e logo virou-se para encarar a princesa, que continuava em silêncio olhando para mim... Para lugar algum. Por um momento imaginei que ela pudesse me enxergar, então mudei de lugar, queria saber se seu olhar acompanharia meus passos, mas não, era apenas coincidência. Depois de um longo tempo em silêncio, para o fim de minha tortura, ela resolveu se manifestar. Eu já não aguentava mais, não ouvir o som de sua voz.
- E a banda? – Questionou e todos balançaram a cabeça negativamente.
- É assunto encerrado. – segurou suas mãos.
- Depois do seu desfile nós iremos falar sobre isso... Abertamente, com o público. – aproximou-se.
- Mas...
- Mas nada. Você tem um desfile para fazer. – a interrompeu e seu celular começou a tocar, ela pediu licença e correu para seu quarto.
Jogou-se sobre a cama, colocando seu celular no viva-voz, talvez por possuir uma absoluta indisposição para ficar pressionando o aparelho contra seus ouvidos. Estava apreensiva, com medo de não me ouvir no outro lado da linha, ela sabia que eu não podia ligar, mas ainda havia esperança em seu olhar... No fundo, ela esperava que eu estivesse bem, em algum lugar. Pude ver seu magnífico olhar, ser coberto por lágrimas ao ouvir a voz de sua mãe.
“ – Eu sinto muito. – Disse a voz graciosa do outro lado da linha.
- Mãe, o que eu fiz? – Questionou levando as mãos ao rosto.
- A culpa não é sua, querida. Foi um acidente. – Respondeu.
- Você não entende, sou responsável pelo que houve.
- Pare de culpar-se, ele não gostaria de presenciar isso. – Ela estava extremamente certa, não era culpada, eu sou. – Não vou deixá-la se lamentando, você tem um desfile para fazer. – Continuou.
- Eu não vou fazer o desfile. – Murmurou.
- Você ama a sua profissão e essa foi uma das oportunidades que ele te deixou, você precisa fazer. Onde quer que ele esteja, irá se orgulhar da pequena dele. – Disse a Sra.
- Não consigo sem ele. – Sussurrou.
- A vida continua, meu anjo. Eu preciso ir, mas encontro você no desfile. Eu te amo, fique bem e seja forte. – Disse, desligando a chamada. “
manteve-se em silêncio, analisou o ambiente e deitou-se sobre a cama, abraçando o travesseiro a sua frente, apertando-o fortemente, talvez por exalar meu perfume, o aroma faz com que as memórias tornem-se mais presentes.
- Por que fiz isso com você? – Sussurrou. Por quê ela dizia isso? A culpa era inteira e unicamente minha, não fui bom o bastante e durante esse tempo todo, além de feri-la, causei minha própria morte. Hoje sou capaz de vê-la acabando com tudo o que restou dela mesma, tudo o que ME restou e isso é realmente doloroso.
A chuva desmoronava forte do lado externo da casa e os trovões pareciam assustá-la, fazendo-a cerrar os olhos com força, pressionando suas pupilas. Desejei poder protegê-la, aproximei-me, deitando-me junto a ela e abraçando-a, mas foi em vão, meus braços atravessaram o corpo da minha pequena e isso me fez perceber que ela seria incapaz de me sentir.
- Você está aqui, príncipe? – Questionou num sussurro.
- Estou, princesa. – Sorri ao perceber que minha teoria estava errada.
- Fique aqui comigo. – E como se pudesse realmente me sentir, aconchegou-se em meus braços, ela sabia exatamente onde eles estavam posicionados.
- Eu vou ficar, para sempre. – Disse. Se ela pode me sentir, aparentemente, poderia me ouvir também. – Princesa, você precisa parar de culpar-se, eu sou o causador de todo esse mau tempo. – Continuei, ela ficou em silêncio por um longo tempo, mantendo-se intacta, os olhos ainda fechados, os únicos movimentos constantes eram o de sua respiração, de seus soluços e suas lágrimas que não cessavam. – Eu estou aqui. – Sussurrei.
- Sinto falta da sua voz, por que não tem falo comigo? – Questionou. Droga! Minha segunda teoria também estava errada. – Meus olhos permanecerão fechados, assim posso te sentir. Não quero abri-los, tenho medo de você desaparecer e quero você comigo. – Ela entrelaçou suas mãos, como se uma delas fosse a minha.
- Não vou à lugar algum sem você. – Sussurrei analisando-a.
“ Tears stream, down your face when you lose something you cannot replace. “ (Lágrimas escorrem do seu rosto, quando você perde algo que não pode substituir.) – Cantarolei em seu ouvido, como de costume, tentando fazê-la dormir e assim ela o fez. Talvez as lágrimas que pesavam em seus olhos, tenham ajudado-a. Ela parecia tão frágil, como uma pequena boneca de porcelana que você precisa tomar cuidado para não quebrá-la. Sua pele clara estava levemente corada por sua dor, seu rosto úmido por conta das lágrimas, olhos inchados com olheiras profundas, um curativo acima de sua sobrancelha e a mesma vincada, demonstrando preocupação. A minha princesa estava tão machucada, não fisicamente, mas seu interior estava acabado. Seu coração pulsava tão forte, a ponto de ser perceptível através de sua roupa, que se movia no ritmo do mesmo.
Minutos depois a porta abriu-se vagarosamente. Era , verificando o estado da pequena, que encontrava-se, aparentemente sozinha, intacta na gigante cama de casal. Seus olhos não podiam me ver e ele era incapaz de sentir a minha presença.
- E aí, irmão. – Sussurrei. Ele estava preocupado, o nó em sua garganta era nítido, seus olhos vermelhos e cílios úmidos observavam-na. Parecia pensativo e confuso, como se não soubesse o que fazer para ajudá-la, em seguida, deixou o quarto novamente. Analisei o ambiente e tudo estava em seu devido lugar, exceto pelo meu celular, que estava sobre o criado mudo e antes, encontrava-se sobre a mesa da casa ao lado.
“Descanse em paz” é o que dizem as pessoas à alguém que partiu para um lugar sem passagem de volta. Mas porquê não consigo descansar? Estou relativamente bem, mas eles não estão... Ela não está. Não consigo ver o tempo passar, eu simplesmente fecho os olhos e acordo em um outro lugar, um outro dia, como se tivesse adormecido por um longo tempo, mas me lembro apenas de piscar os olhos. E foi exatamente o que aconteceu, abri os olhos e ela já estava acordada, vestia uma calça de couro, camisa, sapato oxford e um óculos escuro, ambos na cor preta, que demonstrava o luto. Seu cabelo estava preso em um coque, sua maquiagem era leve. Ela estava de pé ao lado da cama, analisando a mesma, vazia. Eu estava ao lado da porta, então direcionei-me até a pequena, abraçando-a, mas ela não pode sentir-me, manteve-se intacta, com os olhos fixos em meu travesseiro, posicionado perfeitamente ao lado do seu.
- Você está pronta? – Questionou , abrindo a porta vagarosamente.
- Acho que sim. – forçou um sorriso. Para o que, exatamente ela precisava estar pronta? O que perdi enquanto supostamente dormia? A princesa pegou uma caixa vermelha que estava acima da cômoda e caminhou até o lado externo do quarto, junto a . Acompanhei-os, descemos até a sala de estar, onde encontrava-se . Eu tinha minhas dúvidas sobre a caixa, talvez seja exatamente o que estou pensando e tenha entregado a ela, aliás a mesma estava em minha casa, escondida dentro do guarda-roupa.
- Vamos? – Questionou . A princesa analisou em volta e silenciou-se por um momento, até que pudesse afirmar. Pegou sua bolsa, e caminhou até seu carro, sentou-se no banco traseiro, assim como eu, quanto a sentou-se no banco do motorista e no passageiro. Mas, para onde estamos indo? O caminho foi silencioso, apenas o som dos automóveis na estrada eram perceptíveis. Havia anoitecido e a princesa observava as estrelas através da janela, o chão estava úmido por conta da chuva que havia caído mais cedo. O caminho me parecia familiar, e descobri que minha teoria estava certa quando abriu a caixa. Havia inúmeras fotografias polaroides, numeradas. A princesa selecionou a primeira, pegando-a em suas pequenas mãos e analisando-a, sem entender exatamente o que significava aquela imagem. Era o tronco de uma árvore, não aparecia a planta completa, apenas a metade dela. Na parte branca da foto, estava escrito com minha caligrafia “Hyde park, Londres.“ e era exatamente para lá que estávamos indo. – Chegamos. – Disse , estacionando o automóvel.
- Pegue a caixa, você precisará dela. – Sorriu , fazendo-a forçar um sorriso em retribuição. – Essas fotografias foram tiradas por , no dia em que você recebeu aquela surpresa em seu quarto, com inúmeros bilhetes e flores. Passamos o dia todo fora, para que ele preparasse esse presente para você. – Analisou-a e ela engoliu o nó que ficou preso em sua garganta durante dias.
- havia me contado, eu sabia sobre absolutamente tudo... – Hesitou . – Seu objetivo, é encontrar o local onde essas fotografias foram tiradas. – Sorriu.
- Como vou fazer para encontrar? – Questionou a pequena.
- Levaremos você aos lugares, e a deixaremos procurar por todo o ambiente. – sorriu, entregando a ela, uma espécie de lamparina, aliás, já havia anoitecido e a única luz existente, eram a das estrelas e da lua, coberta por nuvens.
- Estaremos por perto, se precisar. – afirmou e ela assentiu em agradecimento. Em seguida, virou-se caminhando dentre o parque, analisando a fotografia e os lugares, procurando pela árvore correta. Era como uma gincana, onde crianças procuram por um prêmio, mas ela não sabia ao certo o que iria encontrar.
- Você deveria estar aqui, anjo. – Disse, olhando para o céu. Queria que ela soubesse que eu não estava lá em cima, como todas as pessoas que se vão e sim ao seu lado, durante todo o tempo. Eu fiz uma promessa e vou cumprir até que possam me impedir. ficou em silêncio por um tempo, observando as estrelas que tanto brilhavam, mas logo em seguida, voltou a analisar a imagem da grande árvore. – É possível ver a fonte, atrás da árvore. Devo ir para o outro lado. – Disse, mudando seu percurso e direcionando seu olhar para os garotos, que mantiveram-se no mesmo lugar, observando-a. A princesa caminhou por mais um tempo, até chegar em uma pequena estrada com inúmeras árvores, analisou a fotografia mais uma vez, até que por fim, encontrou o que tanto procurava, estava distante das outras plantas, um tanto escondida. Aproximou-se da árvore, levantou a lamparina para iluminá-la e analisou a mesma. Seus olhos brilharam, e seu sorriso expandiu-se, sem esforço algum. Depois de longos dias, pude ver seu sorriso espontâneo iluminar o ambiente. Passou seus dedos pelas marcas no tronco da árvore, feitas por mim. – “Eu amo você, pequena.” – Seu olhar tornou-se marejado ao ler o que havia escrito. Em seguida, pegou uma fotografia que estava anexa acima da mensagem e colocou ao lado da que estava com ela. A fotografia completava a imagem que ela possuía em suas mãos, juntamente com a mensagem, eu fazia parte dessa outra metade. sentou-se abaixo da imensa árvore, analisando ambas as fotos e novamente, não pode conter suas lágrimas. Instantes depois, os garotos foram de encontro a ela, sentando-se ao seu lado.
- Magnífico, não é? – Sorriu .
- Sem dúvidas. – Analisou-o.
- escolheu essa árvore, pois ninguém poderia vê-lo colando uma fotografia na mesma ou marcando-a com um canivete. Se o vissem fazendo algo assim, poderia ser expulso e baniriam sua entrada no parque, por danos causados a natureza. – Sorriu. – Precisei vigiar o ambiente por longos minutos e ele ficava espantado quando eu brincava dizendo que os guardas estavam a caminho. – Gargalhou , contagiando-a com sua risada. Minha pequena ficou aérea por um minuto, mas ainda sorrindo, parecia criar imagens de como havia sido aquele dia. – Agora você precisa escrever algo na parte branca da foto. – entregou-a uma caneta que havia dentro da caixa.
“Sinto sua falta, príncipe.” Foi o que ela escreveu abaixo da foto.
- Eu também, princesa... Eu também. – Sussurrei. É complicado vê-la todos os dias e não conseguir tocá-la, fazê-la sorrir, beijá-la. É difícil estar ao lado da princesa, mas permanecer distante demais para fazê-la se sentir a pessoa mais incrível e importante do mundo.
- Precisamos ir, existem as outras imagens que precisa ir em busca. – sorriu, estendendo suas mãos para ajudá-la a levantar.
- “Green Park, Londres.” – A pequena analisou a fotografia número dois, enquanto lia o que havia escrito. Em seguida, caminharam até lá, aliás, era localizado perto do Hyde park. – É uma espécie de estrada, será fácil encontrar. – Sorriu. Os garotos a deixaram no centro do parque, para que ela pudesse encontrar sozinha. Direcionou-se até a estrada de barro, e analisou-a. Abaixando-se perto do gramado ao encontrar a fotografia, aliás, a mensagem estava quase se apagando, por conta do tempo e das pessoas que passavam por ali, sem notar que havia algo escrito. – “Sorria, princesa.“ – E assim fez, espontaneamente. Colocou a lamparina sobre o chão, observando a fotografia, que mostrava apenas meus sapatos sujos e a mensagem no chão. Em seguida juntou ambas as fotos, pegou a caneta e escreveu na parte branca: “Obrigada por me fazer sorrir...” Levantou-se e caminhou de volta para os garotos, aliás, ainda faltavam algumas fotografias.
- Encontrei. – Sorriu, balançando a imagem, mostrando aos meninos.
- Vamos? – Questionou .
- Próxima parada... “St. James's Park”. – Encarou a terceira foto. Caminharam até lá, pois o Green Park fica entre o St. James e o Hyde park, então, não haveria necessidade em ir de carro. – Fica perto de uma lagoa. – Analisou o ambiente a sua volta e seguiu em busca do local, procurando por uma mensagem.
- Você está aqui, príncipe? – Questionou, analisando o ambiente.
- Estou. Consegue me ouvir? – Caminhei, parando diante de , interrompendo sua busca e fazendo-a encarar fixamente em meus olhos, na verdade, na direção deles. Em seguida, pressionou fortemente suas pupilas e continuou a caminhar, sentando-se frente à lagoa, apanhando a foto ao chão. – “ Amo para sempre...” – Esboçou um sorriso ao ler a mensagem , e escreveu logo abaixo: “Estou com você, para sempre.”... Eu também princesa, para o resto da minha... Tortura? Não posso chamar isso de vida, porque não é possível viver tentando te tocar, mesmo sem sentir você. Analisou a lagoa e encolheu-se por culpa da brisa fria que tocou seu corpo, quis aquecê-la e mesmo sabendo que seria em vão, eu o fiz. O vento agitava a água pouco iluminada, aliás, a única luz no local era a lamparina que ela carregou junto a si, durante o percurso. Passou seus dedos sobre a água, ignorando se os mesmos congelariam por conta da temperatura, não consegui enxergar-me na imagem refletida na lagoa, mas isso não era tão significativo, pois a princesa estava desenhada perfeitamente naquele reflexo, estava viva e isso era o que importava.

III – Only you can save her.


manteve-se intacta, observando a lagoa, arregalou os olhos ao ver o reflexo de uma pessoa atrás de seu corpo, fechou os olhos e suspirou. Analisei a água para tentar enxergar-me, mas pude ver apenas uma sombra. Ela estava inquieta, querendo encontrar-me e por impulso, virou-se para verificar.
- ... – Suspirou.
- Desculpe-me. – Disse.
- Sem problemas. – Sorriu. – Encontrei. – Balançou a fotografia.
- Ótimo. Então, podemos ir? – Questionou.
- Sim. – Afirmou, apanhou a lamparina e estendeu seus braços, para que a ajudasse a levantar. – Próxima parada “ Kensington Gardens”. – Sorriu. Acompanhei-os durante o percurso, estávamos voltando ao Hyde park, pois o local que procuravam ficava ao lado. Chegando ao parque, a princesa analisou a foto e sem esperar nem mais um segundo, caminhou em direção à uma espécie de praça, onde havia um pequeno lago central e em sua volta havia inúmeras flores, como em um jardim. Era exatamente o local da imagem em suas mãos. A quarta fotografia estava anexa em um dos pequenos vasos de flores, eu estava sentado ao lado, segurando um pequeno papel, que agora, encontrava-se grudado ao chão com uma pequena mensagem, aparentemente sem sentido algum: “ ... Mais forte... “. analisou a foto, e vincou as sobrancelhas, tentando entender, mas em seguida sorriu e deu de ombros, escrevendo abaixo da foto: “Sei que está aqui.” Levantou-se e caminhou de volta aos garotos, que a levaram até o Regent’s Park, local seguinte e que ficava próximo aos demais lugares pelo qual passaram. A quinta foto mostrava uma grande e bela fonte, em volta havia algumas árvores, o gramado perfeitamente cuidado e algumas flores. Como nas últimas vezes, correu até o local, sem muita dificuldade para encontrá-lo. A imagem estava anexa na fonte, eu estava frente a mesma, com a mensagem nas mãos, agora estava anexa logo abaixo da fotografia, escrito em um papel: “Para que meu coração...”. A princesa analisou e mais uma vez vincou suas sobrancelhas, procurando por respostas, mas foi em vão, novamente deu de ombros e escreveu abaixo “Preciso de você”.
- Encontrei. Próxima parada “Richmond Park”. – Sorriu.
- Vamos para o carro, saindo do centro de Londres para ir rumo ao subúrbio. – sorriu em retribuição. Caminharam de volta ao automóvel, dirigia, foi no banco do passageiro, quanto e eu, fomos no banco traseiro. manteve seu olhar na paisagem durante todo o percurso, algumas vezes encarava minhas fotografias e sorria, ela sentia minha falta, mas depois de tudo o que havia acontecido, ela estava sorrindo espontaneamente e isso era um passo extremamente grande. Minutos depois, chegaram ao tão esperado local.
- Vamos acompanhá-la, tudo bem? Existem alguns animais e pode ser um pouco perigoso. – Alertou .
- Tudo bem. – Afirmou.
A pequena analisou a fotografia, havia uma árvore e ao lado um dos animais que havia no parque, observou cada detalhe para que pudesse correr até lá e descobrir o que encontraria. Quando teve certeza sobre a árvore, puxou os garotos e caminharam lentamente, por conta dos animais que descansavam no ambiente. Na fotografia, eu me encontrava abraçando a árvore e sorrindo, isso a fez gargalhar. A mensagem estava marcada na árvore, levantou a lamparina e assustou-se ao ler: “...Possa bater...”
- O que houve? – Questionou .
- Nada, está tudo bem. – Forçou um sorriso, em seguida escreveu abaixo da fotografia: “Perdoe-me.”. Perdoar exatamente o que? Não existia motivo algum para ela me pedir perdão.
- Vamos? – Novamente forçou um sorriso. – Rumo ao Greenwich park. – Disse, caminhando lentamente para fora do gramado e procurando pelo local seguinte. A sétima fotografia também mostrava uma árvore, não demorou para que ela a encontrasse. A imagem anexa, mostrava-me ao lado da grande árvore, a princesa usou novamente a lamparina para iluminar o ambiente, a mensagem era: “...essa noite.” E novamente ela estava confusa, talvez com um pouco de medo. Analisou o local, encontrava-se vazio, exceto pelos garotos um pouco distantes. “Onde você está?” foi o que ela escreveu abaixo da foto.
- Estou aqui, ao seu lado. Consegue me ouvir? – Questionei, mas ela manteve-se em silêncio e caminhou de volta aos garotos.
- Rumo ao “Bushy park”, é o último. – Disse num tom de tristeza, talvez ela estivesse se divertindo. Caminharam até o último parque, a imagem nas mãos da princesa, mostrava uma pequena ponte, talvez a única do ambiente. correu até lá e encontrou a fotografia anexa na lateral da ponte, a mensagem estava escrita em um pequeno pedaço de papel, e dizia: “Até o meu último suspiro” isso a fez ficar aérea por uns minutos, algumas lágrimas escorreram pelo seu rosto, as últimas frases, talvez não tenham sido adequadas diante de todas as coisas que aconteceram nos últimos dias. “Volta para mim.” Foi a frase da pequena.
- As fotos acabaram. – Sorriu fraco, indo de encontro aos garotos.
- Agora você precisa ordenar as fotografias, para descobrir a mensagem. – Analisou-a.
- Precisamos ir, poderia ordená-las em casa? – Questionou .
- Claro. – Assentiu, abraçando-se a , tentando aquecer-se. Caminhamos até o automóvel, dirigiu e dessa vez, sentou-se no banco traseiro, junto a mim e . Fomos rumo ao complexo, a pequena acabou adormecendo no trajeto. Fechei meus olhos por um instante e acordei ao lado da princesa, que espalhava as fotografias sobre a cama, tentando montar a mensagem. Ela estava ansiosa para descobrir, seus olhos brilhavam por anseio. Mudou a sequencia de fotos por inúmeras vezes, sem dizer sequer uma palavra. Posso dizer que foram longas horas, até que ela pudesse desvendar.
- “ Sorria, princesa. Para que meu coração possa bater mais forte essa noite. Eu amo você, pequena. Amo para sempre, até a meu último suspiro.” – Leu a mensagem e o brilho de seus olhos, transformaram-se em lágrimas. Aproximei-me, me sentando ao lado de e tentando abraçá-la.
- Estou aqui. – Disse e pude vê-la encarar-me... Pude vê-la olhar em minha direção.
- Posso enxergar você. – Disse , analisando-me e com um sorriso esplêndido que surgiu em sua face, como se realmente pudesse me ver.
- Consegue me ouvir? – Questionei apreensivo.
- Sim e consigo te sentir. – Sorriu, mas as lágrimas ainda não cessavam. – E você está da mesma forma da última vez que te vi... Machucado! – Continuou.
- Então feche os olhos, não quero que me veja dessa forma, não novamente. – Coloquei minha mão sobre seus olhos, tampando-os.
- Só se você fechar os seus também. – Ela repetiu meu gesto, fazendo-me sorrir. – Agora tudo ficará bem? – Questionou. Eu sabia que ficaria por um instante, pois com os olhos fechados eu não poderia vê-la machucada, e nem ela a mim.
- Eu ficarei, contanto que você esteja.
- Leve-me daqui. – Retirou sua mão de meus olhos e a posicionou sobre a lateral de meu rosto, acariciando-o. – Me leve com você, sinto sua falta o tempo todo, mesmo quando consigo te sentir. Eu não aguento mais! – Suplicou, sua voz falhava por conta do choro.
- Eu não posso levá-la e nem ousaria a fazer algo assim. – Disse, e puxei sua mão novamente para cobrir meus olhos, pois não aguentaria vê-la chorar novamente. Mas ela recuou. – Você tem uma vida para seguir e eu estou com você, mesmo em outro plano da vida. Eu também sinto a sua falta, mas continuo aqui e você sabe disso. – Analisei-a e então ela me abraçou, como se eu estivesse ao seu lado, como aquela vez em que ela voltou de viagem, ou após as nossas brigas... Havia muito mais intensidade, mais saudade, mais dor e mais amor, de ambas as partes, mas ela ainda era minha menininha, que precisava de proteção e apoio, os quais eu não poderia oferecer a ela, aliás, eu não existo fora daquela mórbida caixa.
- Tenho direito às minhas escolhas, apenas não quero ficar aqui sem você. Tire-me daqui! – Implorou, mas mesmo que eu tivesse o poder, não poderia tirá-la de lá, não teria coragem de matá-la.
- Não posso e não vou. Nunca a machucaria, não poderia conviver com isso. VOCÊ é o motivo pelo qual ainda estou aqui, protejo você de longe... – Sorri.
- Eu amo você. – Sussurrou e beijou-me em seguida, pude sentir e assim como o abraço, havia muita intensidade. – Não vá embora, preciso de você. – Pediu.
- Eu não vou, nunca. Estarei sempre ao seu lado. – Sorri. – E, por favor, pare de se machucar, vê-la assim acaba comigo. – Pedi, mas ela não respondeu. – Eu amo você. – Disse, com medo de que ela não pudesse me ouvir, mas eu ainda a sentia.
- Eu também te amo, meu anjo. – Abraçou-me e selou nossos lábios, em seguida, deitei-me na cama e puxei-a para perto, fazendo-a deitar-se sobre meu peito e ela então adormeceu. Fechei meus olhos e acordei no dia seguinte, estávamos na cozinha. Ela continuava a preparar panquecas, e a colocar um prato a mais sobre a mesa, como se eu fosse aparecer para o café da manhã.
- Você precisa seguir em frente, princesa. – Balancei a cabeça, negativamente.
- Bom dia. – adentrou a cozinha e sorriu.
- Bom dia, garotão. – Sorriu em retribuição.
- Como você está? – Questionou , sentando-se.
- Melhor e você, como está? – Analisou-o.
- Melhorando. – Sorriu.
- Mel ou chocolate? – Mostrou-o os dois recipientes.
- Mel. – Respondeu, piscando um de seus olhos. Sorri ao ver que ela conseguia lembrar-se de mim e não chorar, era um sorriso doloroso, talvez até egoísta, não soava como se eu estivesse feliz. Em seguida , virou seu olhar em minha direção, arregalando os olhos e paralisando. – ? Vo-você? – Gaguejou, ele pode me ver? direcionou seu olhar até mim em fração de segundos, procurando meu olhar, como sempre fazia.
- ? – Chamou-o.
- Eu o vi, posso jurar. Ele estava parado em frente ao balcão, eu não consigo explicar. – Apressou sua fala.
- Fica calmo, . – Disse , ainda procurando por mim.
- Você não acredita, não é? Acha que enlouqueci. – Balançou a cabeça negativamente.
- Eu acredito... – Sentou-se ao lado de .
- Você também o vê? Gostaria de vê-lo? – Analisou-a, confuso.
- Gostaria... – Hesitou. A princesa não contou, talvez por achar que ele enlouqueceria se soubesse... Ele iria, e acredito que ela irá demorar até tirar minha imagem da memória de .
- Você está bem? – Questionou-o.
- Estou bem... – Hesitou, pensativo o bastante para prestar atenção em qualquer coisa que fosse dita. – Já passou!
- Você é o pior ator que pode existir. – Sorriu nasalado.
- Eu sei. – Disse. – Mas tenho que manter-me forte. Sou uma de suas pilastras, se eu desabar, você desaba também. – Deu um meio sorriso e ela o abraçou. Pisquei meus olhos, e como num flash de segundos pude ver as coisas passarem, como o trailer de um longa-metragem. Seria o momento em que encontraria a luz? Era hora de realmente partir e deixá-la? Talvez ela estivesse bem o suficiente para ficar sem mim, ou talvez estivesse seguido em frente, encontrado outro alguém, alguém melhor que eu e que não a fará sofrer, talvez seja a hora... Agora!
- Eu te amo! – Disse a pequena enrolada em uma roupa de banho, enquanto analisava o quarto, sobre a cama ainda bagunçada. Parecia procurar alguém. - Eu também... – Ele adentrou ao cômodo e sorria, sorria como nunca antes. Então... Ela havia seguido em frente? Era como se eu estivesse assistindo a um filme. Mas eu havia adormecido em alguma parte? Perdi algum capítulo disso tudo? Não conseguia entender o que havia acontecido ou calcular quanto tempo se passou depois que pisquei os olhos, não posso voltar e assistir tudo novamente, porque não era apenas um filme, aquilo era nitidamente minha tortura, meu fim, estava acabado e sentia como se eu não existisse nem nas lembranças da garota que eu chamava de ‘minha’. Ele se aproximou da 'minha' menina, apoiando-se sobre seus cotovelos na cama, e cada vez mais perto. Fechei os olhos e desejei que fosse realmente um filme, para que eu pudesse pausar, ou pular a parte que eu estava prestes a ver. Ele iria beijá-la, tinha certeza disso...
- ! – Ela riu. – Estou falando com o . – Gargalhou.
- Eu sei. – Respondeu. – Eu só... – Hesitou. hesitou?
- ? – Chamou-o, agora seus olhos eram preocupados. – Está tudo bem?
- Está, mas eu não sei... – Disse confuso. – Eu sonhei com ele. E ele me pediu para dizer e fazer o que ele faria se estivesse aqui, e eu vou fazer. – segurou a mão da pequena que o admirava assustada, encantada. – Ele me pediu para cuidar de você, não deixar que você se machuque e não deixarei. Prometo que estarei aqui para você como sempre esteve. Cuidarei de você como se fosse a única coisa que eu devo fazer.
- Eu preciso saber quando for algo que ele faria por mim...
- Tudo o que eu fizer, é o que ele faria...
- E se não for?
- Se não for por ele... Será por mim, será por que ‘eu’ quero! – Enfatizou. – Eu também te amo. – Sorriu, e a única reação que ela pode ter diante daquelas palavras foi abraçá-lo. Minha menina nos braços de , ela estaria segura. Segura para que eu finalmente pudesse ir, ele cuidaria dela como eu o faria se estivesse ao seu lado, enxugaria suas lágrimas, espantaria seus medos, a faria sorrir, a levaria consigo onde quer que fosse, eles estariam juntos, e eu estaria aqui em algum lugar, inexistente, então ela me encontraria apenas em suas lembranças, que logo tornariam-se vagas de mais para parecer que um dia fui real. Eu só esperava que eu pudesse sumir, deixá-la antes de poder vê-la seguir em frente, antes de poder perdê-la para alguém de verdade. Isso soa como egoísmo, mas não posso evitar esse sentimento, é tudo muito repentino e recente para me acostumar tão rápido. – Precisamos nos arrumar, o desfile começa em algumas horas. – sorriu caminhando até a porta e a princesa assentiu. Que dia é hoje? Em que mês estamos? Que horas são? Quanto tempo havia se passado? Não conseguia processar as informações, eu estava perdido nessa confusão.
- Onde é que você está, príncipe? – Questionou , caminhando até o armário e apanhando uma roupa, embrulhada em uma daquelas capas pretas que mantêm a peça conservada, longe de poeira e ainda evita que as pessoas possam vê-la antes da hora. A princesa colocou-a sobre a cama e em seguida abriu a capa, tirando de lá um vestido longo, na cor preta, com rendas e alguns detalhes em pedras preciosas, havia um decote em “v” na parte de trás, uma abertura na parte direita do vestido, para que pudesse mostrar sua bela e delicada perna e na altura do ombro, existia um grande laço vermelho. Exatamente aquele que eu havia derramado molho de ketchup sobre o desenho, mas de acordo com ela, era seu favorito desde então. Fechei os olhos por um instante, imaginando o motivo de não poder estar com ela e quando os abri novamente, estava sentado no sofá da sala, junto a que vestia um smoking, calça, gravata, sapatos pretos e uma camisa branca, estava elegante e parecia aguardar alguém, talvez a princesa, que minutos depois desceu as escadas.
- Como você está... Maravilhosa. – Disse , levantando-se e ajudando-a a descer. De fato ela estava maravilhosa, e incluo divina, sensacional, perfeita. Não havia adjetivos suficientes para descrevê-la. Seu cabelo estava preso em um coque, seus olhos contornados em preto e um batom vermelho, combinando com seu tom de pele. Usava um salto delicado e simples, também na cor preta, talvez para enfatizar completamente em seu vestido e não na aparência, mas seria difícil focar apenas em sua obra, quando um anjo a vestia. Estava sutilmente sensual, mas através de seus olhos, existia a inocência, que sempre pairou sobre a princesa. Ela era capaz de fazer qualquer mulher cobiçar sua perfeição, tinha o poder de deixar qualquer homem aos seus pés, aliás, todos seriam capazes de admirar seu perfeito rosto, ficariam perplexos com sua esplêndida perna à mostra, tropeçariam em suas palavras ao falar com uma garota tão bela e majestosa.
A princesa deixou um sorriso alargar-se em seu rosto, era tão sincero e esplêndido, que me fez ficar sobre meus joelhos. Essa era a arma e cura mais magnífica que ela possuía, capaz de consertar qualquer coração e purificar a mais árdua alma. Ela me tinha em suas mãos com tanta facilidade, bastava um sorriso para que eu ficasse sem chão e completamente preso a ela, apenas isso, e era como ter a felicidade de volta.
Olhei para mim mesmo, analisando-me e digamos que eu estava com as vestes adequadas, uma roupa social e elegante, num tom escuro. A mesma roupa da cerimônia, na qual pessoas queridas puderam despedir-se de mim.
- , você poderia pegar essa caixa e levá-la até o carro, por favor? – Pediu a deslumbrante princesa.
- Claro, mas o que seria isso? – Questionou.
- É surpresa. Passei dias planejando, fazendo uma decisão e acho que o desfile ficará ainda mais importante. – Sorriu e novamente, eu estava de joelhos por ela.
- Seja lá o que for, será incrível. – Sorriu. – Podemos ir? – Analisou-a, apanhando a mediana caixa e indo em direção ao lado externo da casa, ela simplesmente acenou e caminhou até a porta, apagando as luzes e analisando o ambiente vazio.
- Príncipe, sei que está aqui e peço que me acompanhe, esteja lá comigo, preciso do seu apoio. – Suspirou e balançou a cabeça negativamente, aproximei-me tentando abraçá-la, tentativa falha. – Vai ser difícil sem você... Boa noite, eu volto logo. – Deu um meio sorriso e fechou a porta. Não havia necessidade alguma em fazer aquele pedido, eu estaria lá em qualquer circunstancia. Caminhamos até o carro, iria dirigir, ficaria no banco do passageiro, quanto a mim, no banco traseiro. Chegamos em poucos minutos, o local não era tão distante do complexo. deixou o carro no estacionamento, apanhou a caixa e entramos pela porta dos fundos, aliás, o salão estava repleto de pessoas.
- , , . – Sorriu ao vê-los caminharem em sua direção. – Como vocês estão? – Abraçou-os.
- Ansiosos para o desfile e você? – Questionou .
- Foram dias difíceis, mas estou sobrevivendo. Estou tão nervosa, com medo de algo sair errado. – Disse ela, vincando as sobrancelhas.
- Vai dar tudo certo, e ele ficará muito orgulhoso, não importa onde esteja. – sorriu.
- Vi que a primeira cadeira está reservada para ele, um lindo ato, mas talvez doloroso. – Disse , analisando-a com uma expressão preocupada, direcionou seu olhar até a cadeira e suspirou.
- Vou até o camarim, preciso saber como as minhas modelos estão e entregar a elas os ajustes finais. – Forçou um sorriso, pegando a mediana caixa das mãos de .
- Não fique nervosa. Será incrível e estaremos na primeira fila, caso precise de nós. – acenou, afastando-se junto aos demais garotos.
Não sei se deveria esperá-la ou acompanhá-la. Sei que ela ficaria muito feliz se eu descobrisse a surpresa junto a todos, mas meus sentimentos impulsionaram-me a segui-la. entrou no local e foi aplaudida e elogiada, como no primeiro desfile e isso a fez enrubescer.
- Vocês estão divinas. – Sorriu radiante, seus olhos não demonstraram dor naquele instante, parecia realmente feliz. – Trouxe um último detalhe para cada uma de vocês. – Disse, colocando a caixa ao chão e abrindo-a logo em seguida. Fiquei perplexo ao ver o que havia ali dentro. – Não temos tempo para um grande discurso, direi o real motivo quando todas estiverem na passarela. – Sorriu e entregou a cada uma das modelos, um de meus pertences. Camisas e jaquetas, cada uma combinando com a peça de roupa, como se fossem feitas em conjunto.
- , como você está divina! – Adentrou ao ambiente, uma bonita mulher, dona de uma voz graciosa, a qual já ouvira antes. Não a conhecia, mas tinha certeza de que era sua mãe, era nítido por conta do sorriso, tão belo quanto o da minha menina.
- Mãe, como está indo lá fora? – Questionou.
- Tudo pronto, fizemos um ótimo trabalho juntas essa semana. – Abraçou-a.
- Aqui também está tudo pronto e, aliás, obrigada por estar aqui, por ter me ajudado com tudo. – Disse, fechando os olhos, acolhendo sua protetora. – Onde está a Sra. ? Preciso agradecê-la também, foi uma ótima semana, ela me ajudou muito. – Sorriu, afastando-se e procurando pelo ambiente. – A achei. Nos falamos depois do desfile? – Sorriu.
- Com certeza, boa sorte. – A bela mulher, abraçou-a novamente e afastou-se.
- Sra. , muito obrigada por todo o suporte que me deu durante esse tempo, foi muito importante. – Sorriu, analisando minha mãe. As duas mulheres mais importantes da minha vida, juntas novamente. Havia passado uma semana ou ainda mais, perdi tanto tempo ao piscar os olhos, isso é doloroso.
- Ele vai ficar tão orgulhoso, tenho certeza de que ele está aqui com você. – Disse, abraçando minha menina. Como sempre, minha mãe estava certa. – Você precisa ir, existe uma multidão esperando por você. – Sorriu e afastou-se, caminhou até a porta que dava acesso à passarela e bisbilhotou através das cortinas, fazendo-a ficar ainda mais nervosa.
- Estou com você princesa, vá em frente. – Disse, dando um leve beijo em seu rosto... Pude senti-la, a pequena levou uma de suas mãos até sua bochecha, em seguida, direcionou seu olhar para a passarela e sorriu, tive a certeza de que ela saberia onde me encontrar. Caminhei e sentei-me na cadeira reservada para mim, esperando o início do desfile. As músicas selecionadas começaram a tocar, as luzes voltaram-se apenas para o caminho pelo qual as modelos percorreriam, os convidados mantiveram seus olhares fixos em cada peça de roupa desenhada pelas mãos da minha menina, as câmeras fotográficas estavam todas ligadas, direcionadas para cada individuo que pisava na passarela, vez ou outra as lentes fitavam celebridades que estavam no local, mas nenhuma delas conseguiram tirar o foco da coleção e infelizmente, de minha cadeira vazia.
Entrada e saída de modelos, roupas novas e bonitas, com um detalhe especial. Analisei o ambiente e encontrei admirando o evento, tive medo de que ela estragasse tudo, julgando pelas últimas palavras que a ouvi dizer para , mas mudei de ideia ao vê-la aplaudindo a entrada triunfal da fascinante ao final do desfile. A pequena estava tão radiante, mas ao olhar em minha direção, seus olhos encheram-se de lágrimas, fazendo-a encarar o teto imediatamente, por conta da sua tática de evitar o choro. Ela estava com um microfone em suas mãos, talvez para um pequeno discurso, já que era tímida o suficiente para falar em público por muito tempo.
- Queria agradecer a todos que estão presentes, e desculpar-me por adiar o evento por tantos dias, mas creio que todos saibam que o último mês não foi fácil para mim... – Hesitou. Mês? Passou-se um mês e eu o perdi por completo? – foi minha inspiração para criar todos esses vestidos. Complementei a coleção com pertences dele, pois ela não é um mérito apenas meu, ele esteve presente em grande parte... Para ser mais exata, se estou aqui hoje é por culpa dele e foi uma das coisas mais maravilhosas que já me proporcionou. – Sorriu e novamente, seus olhos encheram-se de lágrimas. – Desculpem-me. – Hesitou, secando as gotas salgadas que escorriam de seus olhos. – Gostaria que por gentileza, , , e viessem até aqui, pois eles cuidaram de mim durante esse tempo, me fizeram acreditar que anjos existem. E junto a eles, existe mais um que nunca saiu do meu lado, mesmo tendo que partir. – Analisou o ambiente, talvez procurando por meu olhar, pois os seus já não conseguiam mais esconder a dor que guardou por todo esse tempo. – Eu amo e preciso de você, meu anjo... Isso tudo é pra você, espero que sinta-se orgulhoso, onde quer que esteja. Eu te amo, e como me disse uma vez, amor não é só uma palavra, é entregar-se de corpo, alma e coração. Fique bem, meu menino. – Suspirou, e segurou-a, pois sabia que suas pernas ficariam bambas e ela poderia desabar a qualquer momento. Os garotos ficaram envoltos a ela, abraçando-a, enquanto todos aplaudiam, mas a pequena não tinha forças, seus olhos estavam fechados e as lágrimas escorriam com frequência, caminhei até os garotos e tentei abraçá-los e quando o fiz, eles encolheram-se como se estivessem sentindo frio. A pequena abriu os olhos e sussurrou. – Ele está aqui, pude senti-lo. – Sorriu, afastou-se dos garotos, secou suas lágrimas e acenou em agradecimento aos convidados, em seguida, caminhou de volta para o camarim. Foi um desfile esplêndido, estava nítido o quanto os convidados ficaram maravilhados.
A princesa certificou-se de que tudo estava indo bem no evento, mas não estava em condições de continuar ali, então o deixou antes do fim da comemoração. a levou para casa, quanto aos garotos, seguiram rumo aos seus lares. Apesar da dor no discurso final, aquela noite fora maravilhosa, depois de tanto tempo, pude vê-la sorrir com sinceridade, seus olhos resplandeceram por um longo tempo. Essa noite, ela iria dormir com um sorriso reluzente, como o brilho daquele lindo luar.
- Estou tão cansada. – Disse, acendendo a luz e jogando-se no sofá, retirando de seus pés, aquele delicado, entretanto, desconfortável calçado.
- Eu também, vou tomar um banho e trocar de roupa. Precisa de alguma coisa? – Questionou.
- Estou bem, obrigada. – Assentiu.
- Foi incrível, parabéns. Estou muito feliz por você! – Disse, afastando-se e ela simplesmente sorriu.
ligou a televisão, para tentar distrair-se um pouco e em oitenta por cento das programações, falavam sobre o desfile, o discurso e a cadeira vazia. Isso a perturbou, ela ficava feliz ao saber das criticas, mas eles acabavam com todo aquele brilho ao falar sobre minha partida. voltou minutos depois, com uma roupa confortável, não era uma das minhas e isso me fez deduzir que ele havia feito uma mudança para o quarto de hóspedes, e isso me deu um pouco de estabilidade, por saber que ela estaria em boas mãos.
- Vou até meu quarto, tomar um banho e colocar uma roupa confortável. Caso já tenha ido dormir quando eu voltar, boa noite. – Disse subindo as escadas, entrou no quarto e analisou. Caminhou até o criado mudo ao lado da cama, pegou meu celular que encontrava-se sobre a mesma e ligou-o, vincou as sobrancelhas ao encarar o visor, em seguida, discou algum número e colocou no viva-voz.
“ Oi, aqui é a Futura Mrs. . Não posso atender no momento, mas deixe um recado que retornarei.. “ A caixa de mensagens de seu celular que havíamos gravado juntos. Isso a fez sorrir, um sorriso doloroso, de saudade, mas era espontâneo. Cancelou a chamada e novamente encarou o visor.
- Quantas mensagens de voz deixaram para você, anjo. – Clicou em uma delas, colocando novamente no viva-voz.
- “Onde é que você está, irmão? Não sei o que fazer, ela tem chorado com tanta frequência e não tenho me achado tão útil esses últimos dias. – Hesitou, era a voz de , tão trêmula e desesperada, nunca havia presenciado-o daquela forma. – O que você faria se estivesse aqui? Você está fazendo tanta falta...”
- ... – Sussurrou, com os olhos marejados. Os pensamentos dela deveriam estar como os dele, sem rumo, sem escolhas ou saídas.
, me ajuda cara. Onde você está? Cuida dela, não consigo fazer isso sozinho.”
“Espero que esteja bem, onde quer que esteja.”
“Tenho certeza que te vi na cozinha, hoje. Como isso é possível?” “Estou com saudades de você, sinto falta de quando me aconselhava, de quando festejávamos. Sinto falta do meu irmão.”
“O que você faria no meu lugar? Só você é capaz de salvá-la.”



Don't let me go – Harry Styles ft. Sam McCarthy.

Ambas eram mensagens de voz, todas elas de , desesperado, implorando por socorro. Havia muitas outras, mas a pequena não foi capaz de ouvi-las, não conseguiria. Suas lágrimas não cessavam, os soluços eram altos, a ponto de precisar abafa-los com ajuda do travesseiro.
correu até o banheiro, encostou a porta, observou sua expressão através do espelho, que ainda encontrava-se com a rachadura. Não impediu que suas lágrimas caíssem, retirou seu vestido, soltou seus cabelos e caiu sobre seus joelhos. Seu olhar perdera o brilho, seu sorriso não existia mais, a maquiagem que tanto caprichou para o evento, escorria por sua pele, mostrando as verdadeiras marcas que invadiram seu rosto, as olheiras profundas e a palidez que fora coberta com um tipo de base, era como se estivesse usando uma máscara e ela acabara de cair.
- Sou um estorvo para ele, não posso continuar... – Sussurrou e arrastou-se pelo chão a caminho da banheira, ligando a torneira, para que a mesma pudesse ser cheia. Isso era uma grande tortura, me doía e era como se o céu estivesse desabando sobre mim.
Depois de muito esforço, a pequena levantou-se, desligando a torneira. Apanhou uma lâmina que havia na gaveta e entrou na banheira.
- Não faça isso. – Supliquei, mas não acho que ela tenha me ouvido, pois simplesmente passou a lâmina em seu pulso, rasgando-o, como se sua dor diminuísse a cada corte. – Princesa, não! – Eu não podia fazer nada, tentei segurar seu braço, mas ela não era capaz de me sentir.
A água ganhou um tom avermelhado, por conta de todo o sangue que lhe fora tirado, ela assistia a isso com a dor transbordando de seus olhos. perdeu-se em seus pensamentos por alguns segundos, e logo após, afundou seu corpo naquela água, cobrindo-o por completo, mantendo-se submersa pelo maior tempo possível, pois quando você faz uma tentativa de suicídio, tentando poupar-se do próprio ar, seus pulmões imploram para serem salvos e você acaba cedendo. Levantou a cabeça, ofegante, sugando todo o ar possível.
Ficou aérea por um segundo, em seguida levantou-se, pegando duas camisas que estavam no cesto de roupas, juntou seus pés e os amarrou, a outra camisa foi amarrada em seus braços, usou seus dentes para fazer um forte nó, analisou o ambiente e afundou-se novamente, dessa vez por mais tempo, obrigando-se a acabar com sua vida. Seus olhos arregalaram-se, seu corpo agonizava, mas ela se negava a respirar, era como se estivesse em um oceano, onde era impossível chegar à superfície.
- Levante-se, princesa. Não faça isso! – Supliquei, tentando puxá-la pelo braço, mas foi em vão.
Seus pés moviam-se com rapidez, tentando soltar o nó que os prendiam e isso fazia com que a água da banheira escorresse por todo o chão, suas mãos ainda presas, impediam-na de levantar-se e sua pele modificava-se, obtendo um tom arroxeado, por conta da falta de oxigênio. Pressionou fortemente suas pupilas, como se não aguentasse mais.
- Princesa, seja forte! – Implorei, ainda tentando tirá-la daquela situação, aquela cena era desesperadora, eu não podia permitir, não podia vê-la tirando sua própria vida. Suas pupilas afrouxaram-se aos poucos, fazendo-a abrir os olhos lentamente, seu corpo paralisou.
- NÃO! – Meu grito foi abafado pelo alto barulho da porta, que abriu-se com força. Era , estava desesperado. Correu em direção à pequena, puxando-a para cima. Os olhos da princesa estavam vazios, sem brilho, estava quase desacordada. Seus pulsos marcados, o corpo ainda arroxeado e fraco, jogado sobre a grande banheira.
-? – Sussurrou e então fechou os olhos.

IV – Who saved me?


tirou-a da banheira rapidamente e carregou-a até o quarto, colocando-a deitada sobre o carpete. Pousou uma de suas mãos sobre o coração de e então, seus olhos não conseguiam mais esconder a preocupação e o medo de perdê-la. desamarrou os nós das camisas que envolviam os pulsos e tornozelos da pequena e analisou-a, pensando em algo que pudesse fazer para ajudá-la.
- Acorde , vamos lá. – Disse , exercendo fortes pressões sobre o tórax da pequena, tentando reanimá-la com uma massagem cardíaca. – Acorde! – Analisava-a, em meio às inúmeras tentativas. Em seguida, apanhou rapidamente seu celular, que encontrava-se em seu bolso, discando velozmente algum número, talvez o primeiro que lhe veio a cabeça. – , liga para a ambulância e corre para casa da ! – Disse finalizando a chamada, seu tom de voz era desesperador, entenderia a urgência sem nem mesmo questionar.
- Princesa, acorda... – Observei à aquela cena, totalmente impotente, incapaz de ajudá-la. O corpo da pequena estendido ao chão e a expressão assustada de , tentando reanimá-la a cada vigorosa pressão contra a parede torácica de , com o objetivo de que sua respiração fosse restabelecia e seu coração voltasse a pulsar.
- Oh! Meu Deus, o que eu faço? – Disse , em pânico. Os minutos pareciam se perder no trajeto e era como se as horas estivessem congeladas, a pequena não voltava, a ambulância não chegava e a única coisa que conseguiu espantar qualquer tipo de pensamento negativo, foram os estrondeantes barulhos de velozes passos na escada, em direção ao quarto. Era , que finalmente havia chegado para ajudá-los.
- O que houve? – ajoelhou-se perto a eles, esperando por respostas, enquanto tentava reanimá-la.
- Tentativa de suicídio. – analisou-a, seus olhos estavam vermelhos e sua respiração acelerada, mas ainda tentava manter a calma. – , acorda! – Suplicou. Ela estava lívida, a expressão completamente marcada pela dor, seus pulsos ainda sangravam por conta dos cortes, e junto a eles, seus tornozelos ganharam uma marca arroxeada por conta do forte nó que os prendiam.
- Abra os olhos, pequena. Respire! – Disse, ajoelhando-me próximo a eles e acariciando-a. – Você é forte, sabemos disso. – Minhas sobrancelhas vincavam de preocupação, meus olhos encontravam-se marejados, não havia nada pior do que a dor de vê-la partir... Ela poderia me encontrar, mas ainda não era a hora certa, posso esperar. desceu as escadas, e segundos depois retornou com um recipiente cheio de água e uma pequena toalha de rosto.
- Vamos lá, . – Disse , umedecendo a toalha e passando no rosto de , enquanto continuava a fazer a massagem cardíaca. E depois de tantas tentativas, finalmente a princesa esboçou reação. Abrindo seus olhos com rapidez, tossindo e expelindo toda a água que havia ingerido involuntariamente. Sua respiração estava acelerada, uma expressão triste e desesperada tomou conta de sua face. Pude ver os garotos sorrirem ao vê-la reagir. Suspirei aliviado.
- Você ficou maluca? – repreendeu-a. Talvez a vontade dele fosse de gritar com ela e mostrar o quão ela estava errada, o quanto ela os preocupou. Mas ele não o fez, apenas respirou fundo, aliviado. Enquanto parecia tentar raciocinar.
- Não é hora de questionar, . – analisou-o. – Vou buscar um pouco de água, volto em um minuto. – Continuou.
- Está melhor? – Questionou , já mais calmo. A pequena assentiu vagarosamente, fechando os olhos. – Melhor deitar-se em algum lugar confortável. – Pegou-a novamente em seu colo, posicionando-a cuidadosamente sobre a cama. voltou ao quarto segurando um copo de água e entregando a pequena. – Não! Não se pode dar líquidos a pessoas que acabaram de desmaiar, li sobre isso um dia desses. – Disse , puxando o copo da mão de .
- Por que estava lendo sobre isso? – Sussurrou a pequena, ainda com os olhos fechados.
- Estava prevenindo, eu sabia que a qualquer momento isso poderia acontecer... Quero dizer, não dessa forma, mas você desmaiando por algum motivo, talvez excesso de trabalho ou até mesmo no desfile. Tive medo! – analisou-a, suas sobrancelhas vincaram de preocupação e a pequena sorriu.
- Posso ouvir as sirenes da ambulância. – analisou-os. Finalmente!
- Não preciso de médicos, estou bem. – Disse .
- Está fraca, precisa sim. – observou-a, sentando-se ao lado de .
- Eu não vou. – Protestou.
- Não seja mimada, você PRECISA e vamos até o hospital, para nos certificarmos de que estará bem. – Finalizou , com uma expressão ameaçadora e um tom de voz um tanto alterado. Isso fez com que a princesa não tentasse lutar contra a decisão dele. saiu do quarto, provavelmente para abrir a porta aos enfermeiros.
- Preciso de uma roupa, pode me ajudar? – Questionou a .
- Claro. – Ele a pegou no colo com calma, tentando não machucá-la e pedindo desculpas a cada vez que, por acaso, acava apertando um de seus machucados. Ela não se importava de forma alguma, parecia extasiada, mesmo quando algumas lágrimas teimosas escorriam por seus olhos. deu-a uma manta. – De forma alguma eu vou colocar uma roupa em você, não vou correr o risco de machucá-la mais. – Disse. – Precisamos que eles a examinem primeiro.
- Nada me machuca mais, não depois que levaram o , o meu ! – Sussurrou fraca. – Olha eu aqui reclamando por não tê-lo por perto. Como eu posso? Eu fiz tudo, a culpa é toda minha e sempre será. Eu não sinto dor, eu sinto um peso, um peso enorme aqui... – A pequena arrastou sua mão direita lentamente até seu peito, indicando o coração. – E minha cabeça não vai me deixar em paz. Não enquanto souber que tudo isso fui eu quem causou, a culpa é minha e vou pagar por isso. – Suspirou exausta. – Vou pagar de alguma forma. – Disse por fim.
- Vai ficar tudo bem. – Disse-lhe . Ele não podia vê-la daquela forma, seus olhos eram tristes, talvez até piedosos. E eu sabia com toda a força que minha alma supria, eu sabia que ela não ficaria em paz até que finalmente pudesse se punir o suficiente para esquecer. voltou ao quarto com alguns enfermeiros. Por alguns segundos fechei meus olhos, e novamente todo aquele flash de imagem corria sob meus olhos, quando voltei à mim, ela já estava em uma cama de hospital. dormia desajeitado no pequeno sofá de couro branco ao lado da cama. E a minha pequena estava acordada, olhava o céu, pela janela engradada.
- Você tem sido o meu anjo. – Sussurrou analisando as estrelas lá fora.
- Um péssimo anjo, que não consegue salvar a princesa. – Resmunguei, sem esperança alguma de que ela me ouvisse. Estava bravo, bravo comigo mesmo, por ser tão impotente e não poder fazê-la ficar bem, fazer com que ela continuasse equilibrada como sempre fora.
- Não fique bravo! – Pediu. – São meus erros, inconsertáveis. – Sorriu sem humor nenhum. – Mas saiba. Você me salva. Todos os dias, a cada segundo que estou viva é você quem está me mantendo aqui. Porque eu não quero ficar e tentei encontrar você de todas as formas possíveis, mas você me salva de todas as minhas tentativas. Deixe-me encontrá-lo... Não aguento mais, por favor! – Uma lágrima solitária escorria pelo canto de seu olho esquerdo.
- Eu não posso. – Disse, analisando-a. – As pessoas mudam o tempo todo, mudam de aparência, mudam de endereço, mudam de personalidade... Mas eu continuo aqui, continuo por você. Estou tentando protegê-la, como sempre fiz.
- Você sabe que uma hora ou outra, será obrigado a ceder, não sabe? E então poderíamos nos encontrar, na tão sonhada eternidade. – Suspirou, talvez aliviada por saber que nos encontraríamos novamente.
- Não princesa, não irá acontecer. – Analisei-a, mas ela já não me ouvia. Minha promessa, sempre foi protegê-la, e o farei até que possa existir um fim. Minutos depois, uma enfermeira entrou no quarto, ao qual analisei um pouco melhor. Completamente branco, não havia nada, além de uma espécie de sofá, mais precisamente uma poltrona pequena e desconfortável ao qual repousava e a cama a qual descansava. Não era um quarto comum, era diferente e eu pude pensar em milhares de hipóteses sobre o que seria exatamente aquilo, mas não era tão simples.
- O senhor precisa se retirar, não pode ficar aqui. – Disse a enfermeira, despertando de seu leve sono.
- Quero ficar com ela. – Encarou-a.
- É impossível, o horário de visitas acabou. – Disse e então levantou-se, aproximando-se de .
- Volto assim que conseguir permissão, me desculpe. – Engoliu o nó que formou-se em sua garganta. não esboçou reação alguma, ficou deitada naquela cama, intacta, olhando as estrelas através da janela e respirando fundo, vez ou outra fechava seus olhos, parecendo procurar por momentos memoráveis. Enfermeiros adentraram o quarto milhares de vezes, mas ela continuava em silêncio absoluto, como uma boneca de porcelana, posta para decorar o ambiente. Isso durou longas horas, mas ainda não conseguia entender o que era exatamente aquilo.
- Volto logo. – Fechei os olhos, concentrando-me no lado exterior do quarto e quando voltei a abri-los, estava no meio de um imenso corredor repleto de portas, um ambiente extremamente silencioso. Caminhei vagarosamente até o final, encontrando uma sala onde os garotos aguardavam sentados.
- Sabemos disso, vai ficar tudo bem. – disse, mas o ar de preocupação pairava sobre seus olhos.
- Eu não sabia o que fazer, não podia deixá-la cair ainda mais em todo esse abismo. Achei que esse lugar seria o mais apropriado, longe de fotógrafos, lembranças e tudo que a sufoca. – apoiou seus cotovelos sobre os joelhos, e abaixou a cabeça, desolado. – Desculpe-me, . Desculpe-me. – Sussurrou com a voz embargada, enquanto as lágrimas escorriam de seus olhos. Ele repetiu a mesma frase sete vezes seguida, pude contar.
- Que lugar é esse, ? – Questionei, não obtive respostas. A grande porta de vidro dava visão ao lado externo do hospital. Havia uma placa, mas não consegui acreditar no que havia visto. – “ Hospital Cassel – Centro Psiquiátrico de Londres ”. , o que você está fazendo? – Disse o mais alto que pude, era ridículo, ela precisava de ajuda e não de remédios que a drogassem. Talvez seja por isso que ela estivesse tão quieta, por conta dos sedativos. – Você disse que iria cuidar dela, e fazer tudo o que eu faria. Eu não a colocaria em um sanatório. – Protestei.
- Ela não queria vir... – sussurrou.
- Fique calmo. Também não queríamos que ela estivesse aqui, mas precisa de ajuda. – Disse .
- Você não viu como ela ficou e como lutou contra todos aqueles enfermeiros. Dizendo que eu não poderia ter feito algo assim, que não era louca e que não precisava de ajuda... – Hesitou. – Não a ouviu dizer o quanto me odiava. – Silenciou-se.
- Ela vai ficar bem, vamos cuidar dela. – garantiu.
- Eu sei que foi errado, ter tomado essa decisão sozinho. E implorado por ajuda, porque simplesmente não consegui aguentar a tudo aquilo, vendo-a se matando a cada dia que passava... Ela ficou tão decepcionada quando abriu os olhos e eles estavam lá, prontos para levá-la. Seu olhar direcionou-se a mim, havia dor, medo, desprezo e ódio em seus olhos. – levantou seu rosto e enxugou as lágrimas que ainda continuavam a escorrer. E nenhum dos garotos conseguiu conter a dor que pulsava forte sobre seus corpos.
não se pronunciou, talvez não houvesse palavras confortantes o suficiente para toda a situação. Era difícil acreditar que uma garota tão incrível como estivesse passando por tanto sofrimento, doía ainda mais, saber que eu sou o culpado por todo esse desastre. Caminhei novamente pelo imenso corredor, a porta de seu quarto estava aberta, havia uma enfermeira, ajudando-a a comer, mas ela não queria, parecia não sentir fome.


Cat Power – I Found a Reason.

- Princesa, eu voltei. – Disse sentando-me na poltrona. analisou-me, mas não expressou reação. – Você precisa comer. – Disse, mas ela simplesmente empurrou levemente o prato, indicando que não sentia fome. A enfermeira levantou-se, retirando a bandeja de seu colo e deixando o quarto. Novamente os olhos da princesa encararam o lado exterior da janela, e continuou assim até que finalmente adormecesse. Os dias passavam lentos, não chorava, gritava ou tentava se suicidar e isso era relativamente bom, mas ela também não sorria, gargalhava ou tinha alguma espécie de brilho em seu olhar. Talvez a falta de ânimo, seja por conta da elevada quantidade de medicamentos controladores que a faziam tomar. Foi uma longa, “semana”? Não posso ser exato em relação ao tempo, às vezes quando fecho os olhos, memórias aparecem e de repente se passaram horas, dias ou semanas. Enquanto pude estar com ela, percebi o quão difícil estava sendo. Meus pais, juntos a mãe de a visitaram sempre que podiam, os garotos eram quem ficavam com ela com mais frequência, se desculpava o tempo todo, mas ela não dizia sequer uma palavra, para ninguém... Nem mesmo para mim. Eu não sabia exatamente se ela conseguia me enxergar, ouvir ou sentir, mas eu tinha uma sensação de que ela podia. Por vezes, analisava-me fixamente, durante minutos seguidos, mas talvez ela não soubesse que eu estava ali. Eu conversava com ela, o tempo todo, mas ela nunca dizia nada e isso era tão doloroso.
Os dias passaram-se lentos, mas estava se recuperando aos poucos, conforme os medicamentos diminuíam de quantidade. Depois de alguns dias internada, as enfermeiras a levavam para dar uma volta no jardim do hospital, todas as manhãs.
- É hora de darmos uma volta. – Sorriu a enfermeira. Uma graciosa senhora, talvez uma das mais simpáticas.
- Está um dia lindo lá fora. – Disse , analisando o lado exterior da janela. – Os garotos estão lá fora? – Questionou.
- Sim, estão esperando a senhora.
Ambas caminharam até o jardim, todos os pacientes trajados em uma espécie de vestido branco, semelhantes às roupas que pessoas usam quando vão fazer alguma cirurgia. Cada paciente possuía uma enfermeira, monitorando-os. Eram tudo muito insano, pessoas silenciosas e outras com excesso de barulho. Os garotos foram avistados com rapidez, fazendo-a sorrir, eles estavam analisando o ambiente, um tanto assustados com tudo.
- Oi pequena. – Disse , abraçando-a.
- Como você está? – analisou-a, beijando o topo da cabeça de , que ainda aconchegava-se em .
- Ouvi dizer que está se recuperando rápido. – sorriu.
- Estou bem, obrigada. – analisou-os sorrindo e soltando-se de .
- ... – Suspirou , fazendo-a virar-se para ele. – Me desculpe? – Pediu, como sempre fazia.
- Posso falar com você um instante, ? – Pediu a princesa, ele assentiu olhando para a enfermeira, que autorizou que eles sentassem-se ao banco, onde ela poderia enxergá-los. Então eles caminharam até o mesmo, e se sentaram. – É loucura, não é? – Questionou, analisando o ambiente.
- Sem querer ofender, mas sim, é loucura. – Ele disse. – Me desculpe por isso. – Segurou as mãos de .
- Por que se desculpa tanto? Eu não consigo me lembrar do porque estou aqui, mas talvez eu devesse me desculpar... – Disse, levando uma de suas mãos até o rosto de , acariciando-o.
- Não? – Questionou surpreso.
- De absolutamente nada. Apenas de ter conhecido vocês e um garoto, aliás, o que houve com ele? – Questionou observando , que engoliu em seco. Um garoto? Ela não poderia estar falando de mim, não poderia ter me esquecido.
- Um garoto? – questionou, ganhando tempo para pensar em uma história qualquer.
- Sim, o tal filho do Sr. e da Sra. , que não faço ideia de quem são. Não disse isso a eles por gratidão, aliás, eles sempre aparecem para me visitar... – Hesitou. – Não diga isso para ninguém. – Ela disse, colocando o dedo indicador em sua boca, pedindo que guardasse segredo.
- Eles são nossos amigos. Você deve estar falando do . – Hesitou. – Ele não pode vir. – Continuou.
- Eu estou aqui... – Analisei-os. – Sempre estive.

V – And all the trust is broken now.


- Não me lembro dele, isso é ruim? – Sussurrou a , mas ele não respondeu.
O que houve com nosso amor? Como poderia ter me esquecido? Fiz o meu melhor para que pudesse ter meu nome interligado à minha fisionomia, juntamente com momentos bons e memoráveis, ambos cravados perfeitamente em seu coração. Fiz de tudo para me tornar um refúgio, para poder proteger e cuidar de tudo que envolvia o nome dela, mas seus olhos não me reconhecem mais, virei uma memória desconhecida, um rosto apagado e um coração vazio. Senti-me como um corpo vagando friamente ao redor de uma garota sem memória, era como se tudo o que fiz não tivesse surtido efeito algum sobre ela, como se não tivesse existido sequer um minuto de sentimento, como se não tivéssemos nos amado por todas as estrelas existentes no infinito céu azul.
- Pequena, não me esqueça. – Supliquei com pesar, como se todas as dores já sentidas se multiplicassem e voltassem à tona. – Eu amo tanto você! – Meu tom de voz quase inaudível, perdeu-se em meio ao silêncio mais gritante que já ouvira. De repente tudo se transformou em um barulho ensurdecedor, gritos de todas as direções, gargalhadas e choros incessantes, mas suas últimas palavras eram tudo que ecoavam em minha mente. Minha respiração falhava, como se todo o oxigênio não fosse o suficiente. Na tentativa de controlar minha respiração, involuntariamente, meus olhos se fecharam e acabei voltando à cena do acidente.
- “Te salvaria... Quantas vezes fossem necessárias. Eu morreria em seu lugar.” – Aquela havia sido uma de minhas maiores verdades, um fato perdido em meio à medicamentos, dores, e sentimentos reprimidos. Meu oxigênio foi controlado segundos depois ao fechar meus olhos e me encontrar de pé, no meio daquele quarto branco. A princesa analisava o lado exterior através da janela, a escuridão iluminada apenas pela luz da lua parecia atraente. – Boa noite, princesa. – Sussurrei, e então ela se virou em minha direção.
- , não é? – Questionou confusa. Fiquei surpreso, há dias ela não conseguia me enxergar ou sentir minha presença.
- . – Dei um sorriso torto, tentando esconder a dor.
- O que faz aqui á essa hora e no dia de hoje? – Analisou-me.
- Que horas são e que dia é hoje? – Questionei.
- 3 da manhã, 16 de novembro. – Respondeu. Havia se passado seis meses desde o acidente, acredito que ela esteja aqui há no mínimo três. Perdi tanta coisa, deixei o pior acontecer á ela e não posso evitar, sou apenas alguém que ela não consegue se recordar. Era tão doloroso, mas ser esquecido não deve ser tão árduo quanto esquecer.
- Desculpe o horário inadequado, sei que está tarde, mas não pude deixar de vir. – Analisei-a. – Você não se lembra de quem sou, mas está tudo bem, isso não é importante. – Suspirei.
- Sinto muito por não reconhecê-lo, não consigo nem mesmo lembrar-me do porquê estou aqui, talvez sejam os remédios. – Sentou-se sobre a cama. - Venha, sente-se! – Sorriu.
- Como se sente? – Disse sentando-me a seu lado.
- Não me lembro de boa parte do que aconteceu comigo e esse lugar faz com que me sinta solitária, não gosto de estar só. – Suspirou.
- Você não precisa estar. – Quis abraçá-la, mas tive medo de que ela não me sentisse e se assustasse com o que me tornei.
- Mas se estiver perguntando se estou bem, estou. – Abaixou a cabeça, fitando suas mãos pousadas em suas pernas.
- Logo você estará em casa, e ficará tudo bem... Sempre fica! – Eu tinha o costume de dizer isso à ela, e ao pronunciar aquelas palavras, tive esperanças de que ela se lembrasse de quem sou.
- Você tem razão, . – Sorriu encarando meu olhar.
- ! – Corrigi, era estranho ouvir meu nome completo sair de sua boca sem que esteja brava comigo, não queria parecer um estranho, ela me conhece tão bem.
- ... Seus olhos fazem-me sentir como se tivesse perdido uma parte do que sou. Por quê é que não consigo lembrar-me de você? – Vincou as sobrancelhas, procurando por respostas, mas não pude respondê-la de imediato.
- Talvez se me reconhecesse, novamente iria se tornar parte de uma história de corações partidos. – Disse, procurei tanto por uma resposta indolor, e talvez tenha escolhido a pior delas.
- Qual a nossa ligação? – Questionou.
- Somos amigos. – Respondi após um curto período de silêncio.
- Eu amei você? – Questionou novamente e os únicos sons audíveis, foram os de nossa respiração um tanto acelerada.
- Não, princesa... Não amou! – Era como cravar uma faca em meu próprio coração, omitir algo tão peculiar e significativo. Não poderia dizer a verdade, isso traria de volta as lembranças do que ocorreu, estragaria o tratamento e seu semblante demonstraria a dor diária de sobreviver sentindo-se como uma assassina.
- Quando diz “história de corações partidos”, se refere à exatamente o que? – Aproximou-se, olhando em meus olhos, procurando apenas por respostas, mas eu a entreguei minha alma, meu coração, e meus suspiros desesperados.
- Como todo bom clichê, me apaixonei por você desde o primeiro momento que a vi. Quando seus olhos encontram os meus, fico perplexo, perdido, mas me encontro no mesmo olhar intenso. Tem sido uma caminhada difícil sem você, porque eu te amo bem mais do que amei um dia e isso acaba comigo, seus olhos buscam por respostas o tempo todo, mas eu nunca precisei dizer uma única palavra para que soubesse o que eu queria dizer. E mesmo sem seu amor, sem você e depois de todo esse tempo, eu ainda permaneço aqui, como sempre fora e como sempre será, até que um de nós não esteja mais presente. – Disse e pude sentir-me vivo, como se estivesse preso há anos, e aquela fosse a chave para minha libertação. – Desculpe, é demais para você. – Analisei sua expressão assustada, confusa e desentendida.
- Não sei o que lhe dizer, sinto muito. – Analisou-me piedosamente.
- Está tarde, melhor você dormir. Tudo bem se eu ficar aqui como sempre faço? – Questionei analisando-a.
- Você nunca ficou aqui, aliás, é a primeira vez que vem me visitar. – Franziu o cenho, confusa.
- “Ainda permaneço aqui, como sempre fora e como sempre será, até que um de nós não esteja mais presente.”. O problema, é que nunca notou minha presença. – Sorri levantando-me e sentando-me na poltrona ao lado da cama.
- Deveria ter medo, não o conheço, mas diz que está sempre aqui. – Deitou-se e fechou os olhos. – Mas algo me diz para confiar em você. Boa noite! – Silenciou-se. Observei-a durante a noite toda. Os dias seguintes foram calmos, não houve visitas, pois os garotos não puderam comparecer aquela semana. O horário de visitas funcionava as quintas, sábados e domingos e de acordo com o calendário ainda era terça-feira. Naquela semana, pude notar que talvez o motivo de ela não conseguir me enxergar durante a manhã, fosse por conta da entrada e saída constante de enfermeiras observando-a o tempo todo. Ao anoitecer ela me encontrava, sempre no mesmo lugar, sentado na poltrona, admirando-a.
- Como consegue entrar aqui? – Questionou sorrindo.
- Não posso contar, é segredo e precisa me prometer que irá mantê-lo guardado. – Analisei-a, seu semblante continuava adorável como sempre fora, mesmo com as marcas de expressão e olheiras um pouco aparentes. Há tanto tempo não posso senti-la, estou começando a me esquecer de seu abraço, da maciez de sua pele, do calor de seu corpo. Não quero esquecer, me recuso a perder o que me mantém forte.
- Manterei segredo. – Disse. Eu encarava seus olhos, que se comprimiram levemente ao sorrir. Que sorriso! Capaz de renovar as minhas forças a cada segundo que surgia.
Passamos aquele mês tecnicamente juntos, todas as noites fazíamos companhia um ao outro. Ela não sabe que não estou presente, sempre que tentávamos nos aproximar, me afastava com medo de levá-la para longe outra vez. Nos dias de visitas ela guardava segredo sobre nós, contava sobre seus sentimentos e felicidades, mas nunca mencionava meu nome. Nossas noites se resumiam em sussurros, contar histórias, fazer brincadeiras e rir no travesseiro para abafar o som da voz que precisava gritar em liberdade. Eu a trouxe de volta, meu sorriso favorito e o brilho no olhar voltaram em um único mês e como ela mesma havia dito, eu sou o culpado, e posso garantir com todas as letras existentes e certezas de minha alma: Essa culpa eu assumiria com gratidão, por toda a eternidade. Os dias passaram rápidos, ela era minha força ao anoitecer, mas durante o dia, eu era um corpo vazio e inútil, tão fraco e fragmentado.
- Você sempre usa as mesmas vestes? – Questionou aproximando-se, não soube o que responder de imediato, então apenas me afastei, buscando por uma resposta coerente e válida.
- É... – Hesitei. – Como um apoio moral, já que você também usa vestes iguais todos os dias. – Disparei, fazendo-a sorrir.
- Mas minhas roupas são simples, você está com vestes sociais, como se saísse de alguma festa de gala ou coisa parecida. – Tentou aproximar-se mais uma vez, fazendo-me dar um passo para trás.
- Ver você é uma ocasião especial. – Retruquei. De certa forma, não menti.
- Porque foge sempre que me aproximo? Tem medo por eu estar nesse lugar? Eu não sou maluca. – Recuou, indo em direção à cama.
- Não tenho medo de você, tenho medo do que irá acontecer quando descobrir a verdade sobre quem sou. – Caminhei até a janela, observando o lado exterior do quarto. Não pude encará-la!
- Quem você é e por que está tentando se esconder de mim? – Levantou-se, ficando logo atrás de meu corpo, na tentativa de me cercar.
- Não posso dizer, e não tente conseguir respostas me cercando, isso só te trará dores renovadas. – Desviei de seu corpo, indo em direção à porta.


Heartbreak Story – The wanted.


- Fique! – Segurou em uma de minhas mãos. Paralisei instantaneamente, não tive certeza se havia sentido-a, meu medo impediu-me de saber. Ao me virar para encará-la, percebi que suas mãos ainda seguravam firmemente a minha, eu não estava translucido, aquela noite pude existir.
- Para sempre. – Aproximei-me, puxando-a pela cintura, mas hesitei em beijá-la. Eu sentia a necessidade de selar nossos lábios, mas ela não me reconhecia o suficiente, novamente a ideia de que isso poderia afastá-la rondou meus pensamentos, então apenas depositei um beijo em sua testa e a abracei.
- Não recue dessa vez, não fuja e não tente se afastar. – Disse envolvendo seus braços em torno de meu pescoço, puxando-me para si, evitando qualquer tipo de distância entre nós, e beijou-me intensamente, ao fechar meus olhos pude visualizar o nosso primeiro beijo, foi exatamente da mesma forma, a mesma sensação. Os sentimentos que ela demonstrou através do ato foram os mesmos, insegurança por talvez sentir medo, mas ainda assim, total entrega. Porque o amor não é só uma palavra, é entregar-se de corpo, alma e coração.
- Você não pode fazer isso. – Insisti na ideia de que acabaria afastando-a quando ela descobrisse que não existo.
- Sei o que estou fazendo, . Não quero mais ficar nesse lugar, me tire daqui. – Pediu e me recordei de todas as tentativas falhas que a trouxeram à esse lugar.
- Não acho que posso fazer isso. – Segurei suas mãos, e analisei o lado exterior do local, talvez eu pudesse tirá-la dali por um segundo.
- Por um único minuto, por favor. – Pediu novamente, não pude negar. Caminhei até a porta abrindo-a lentamente e analisando o ambiente, encontrava-se vazio, apenas a recepcionista estava em seu devido lugar, mas falava ao telefone, estava completamente distraída.
- Venha, sem fazer barulho. – Disse, puxando-a pela mão e nos perdendo em meio ao enorme corredor. A entrada que levava ao jardim, ainda estava aberta, talvez eu conseguisse realizar um dos desejos da minha pequena. Passamos pela recepcionista sem esforço algum, segundos depois estávamos no jardim, escondidos em baixo de uma grande árvore e admirando o divino céu.
- Obrigada, há meses que não respiro ao ar livre durante a noite. – Sorriu em agradecimento.
- Não podemos ficar muito tempo, precisamos voltar logo. – Disse e puxei-a para perto, aquecendo-a. Ela aconchegou sua cabeça em meu peito, admirando a lua e contando as estrelas, como uma criança.
- Dizem que estrelas são as almas que partiram, acredito que uma delas seja meu pai... – Hesitou. – Deixou nossa família quando eu ainda era uma criança, sinto falta dele. – Suspirou.
- Tenho certeza que ele está cuidando de você. – Disse. Por isso ela nunca falou sobre o pai, porque o perdeu na infância. Talvez eu o encontre qualquer dia desses, no imenso infinito. Quem sabe um dia eu não me torne uma estrela como as que ela tanto admira?
- , porque estou aqui ao invés de estar em casa? – Questionou, precisava de respostas e nenhuma de suas perguntas seria respondida com coerência.
- Não sei lhe responder... – Hesitei. – Aliás, precisamos voltar. Venha! – Disse levantando-me e estendendo minhas mãos para ajudá-la. Novamente, voltamos ao quarto sem nenhum esforço, a recepcionista continuava ao telefone e as enfermeiras, provavelmente estariam vagando em algum quarto, cuidando de pacientes.
- Obrigada por ser minha companhia noturna. – Agradeceu e sentou-se.
- Você precisa dormir, princesa. Amanhã é dia de visitas e precisará acordar cedo. Boa noite! – Selei nossos lábios e sentei-me ao lado da pequena, acariciando seus cabelos até que adormecesse. Não demorou muito até que me tornasse translucido novamente, então me afastei, pensando em como seria a noite seguinte, se poderia ou não passar segurança à ela.
Fechei os olhos e quando tornei à abri-los, estávamos no jardim, onde todos os pacientes se encontravam. Avistei os garotos e , eles conversavam provavelmente sobre assuntos aleatórios e novidades diárias, como sempre faziam. Aproximei-me tentando ficar por dentro do assunto.
- Talvez devêssemos falar a verdade para você. – Disse , observando-a.
- A verdade? – Questionou. Paralisei, ela não podia saber a verdade, me odiaria o quanto fosse permitido.
- Sobre o que aconteceu... – Hesitou .
- Sobre . – Aproximou-se .
- Eu o vi, está tudo bem. – Disse, e logo se arrependeu ao ver o erro que havia cometido. Era nosso segredo!
- Viu? Do que está falando? – Questionou . A pequena suspirou, pensando no que havia feito, analisou o ambiente e sussurrou um “Desculpe por isso, .”
- tem me visitado todas as noites, não sei como consegue entrar aqui, mas durante o último mês, ele tem aparecido no meu quarto, me faz companhia. Ele diz que está comigo o tempo todo, eu apenas não consigo encontrá-lo. Ele é incrível, não entendo o porquê de nunca ter me visitado antes. – Sorriu. Todos os olhares direcionados à ela, encarando-a assustados e piedosos. Não acredito no que acabei de presenciar, novamente acabei com a vida da minha menina, essa tentativa de protegê-la, se torna cada vez mais falha.
- Desculpe-me, Princesa. – Disse. Que loucura, ela não era capaz de me ouvir.
- , isso é impossível. – aproximou-se, abraçando-a.
- Por que seria? Ele fugiu de vocês? Talvez ele tenha passado os últimos dias aqui, simplesmente para me fazer companhia. – Aconchegou-se em . Seu olhar era tão inocente, eles não poderiam quebrá-la outra vez.
- Ela está tendo alucinações, não é? – Sussurrou .
- O que houve? Por que não acreditam no que digo? – Questionou, perguntas e mais perguntas, e nenhuma resposta indolor.
- Ele faleceu no acidente de carro. – apertou-a em seu corpo ao dizer aquelas palavras, era nítido que ainda doía não só nele, mas em todos que fizeram parte da minha vida.
- Não, ele não faleceu em acidente de carro nenhum. está aqui, está tudo bem! – Afastou-se dos garotos, analisando-os e tentando transmitir um pouco de paz para cada olhar desesperado que a encarava.
- Vocês estavam no mesmo carro, perderam o controle e o automóvel capotou. É por isso que ainda possui algumas cicatrizes, por exemplo, essa que causou uma falha em sua sobrancelha. – passou a mão no rosto de , indicando uma de suas marcas.
- Ele não resistiu, você não aceitou a perda, tentou suicídio e é por isso que está aqui. – segurou-a em seus braços, sabendo que ela poderia fraquejar.
- Não, ele está aqui. – Disse e correu até o quarto, os garotos a acompanharam. – , onde você está? Estão me dizendo algumas coisas e eu sei que não é verdade, porque você está aqui. Apareça! – Gritou, e os garotos à olharam piedosamente.
- Estou aqui, Pequena. Eu existo! – Disse, mas era em vão.
- , estão achando que sou louca. Onde você está? – Questionou, e eu já não sabia o que fazer, a única certeza que tive: “Ela ficaria naquele lugar por mais tempo do que imaginei.”
- Ele não pode vir. – manifestou-se já que todos estavam pasmos com tal reação e não pronunciaram sequer um grito de desespero. Ela estava se recuperando tão bem.
- , você está estragando tudo. Eles pensam que sou louca e a culpa é toda sua, por que não aparece e mostra pra eles que está aqui? Não me faça enlouquecer, entristecer ou espernear. Eu preciso de você aqui, . Apareça! – Suplicou, mas era o fim, nenhum deles poderia me enxergar para provar que não estava louca. Tudo se silenciou, aproximou-se da janela de vidro e observou seu reflexo, passou a mão sobre sua sobrancelha falhada e então as lágrimas não poderiam cessar. A história era verídica, nada poderia mudar o rumo do que havia ocorrido.
Depois do silêncio, um grito de horror foi proferido. Já não havia inocência em seu olhar, estava despedaçada. Seu surto repentino fez com que virasse o quarto de cabeça para baixo, e se debatesse aos gritos. Os garotos a seguraram antes que pudesse causar ferimentos e estragos maiores, era doloroso. As lágrimas não cessaram em momento algum e só tendiam a ficar piores. Sou um perdedor, talvez eu devesse deixá-la de vez.
- Você é uma farsa, . Não quero vê-lo nunca mais. – Gritou, enquanto as enfermeiras chegavam ao quarto, tentando acalmá-la com algum tipo de medicamento injetável. – Eu não sou louca, não sou. – Repetiu constantemente, até que pudesse acreditar em si mesma, balançando-se de um lado para o outro, olhando fixamente para meus olhos, sem piscar os seus.
- Eu te amo. Sinto muito! – Sussurrei. Meu choro não me deixou falar mais alto, a dor era tão imensa, que me impedia de reagir da forma correta.
- Não preciso do para provar minha sanidade. – Gritou. – Não preciso, pois não sou louca... – Hesitou.
- Você precisa se acalmar, olhe para mim. – Pediu , mas ela não esboçou reação, estava em completo transe. – Olhe nos meus olhos. – Disse num tom de ordem, e ela obedeceu.
- Eu enlouqueci.
Continua...


NOTAS DAS AUTORAS: Capítulo 5 finalmente atualizado. Particularmente, eu adorei esse capítulo, de verdade e esperamos que vocês também gostem e entendam a demora, o tempo tem sido curto e tivemos passado por inúmeros problemas pessoais. Bom, estamos respondendo todas as asks aos poucos e ficariamos MUITO felizes se vocês continuarem comentando sobre o que acharam. Lemos e respondemos todas, mesmo que demore um pouco. Desculpe-nos pelo incomodo, sabemos o quanto vocês querem a continuação, e assim que for possível, ela será postada. Agradecemos todo o apoio e compreensão! - Lee & Tammy.
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